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DOM ORANI JOÃO TEMPESTA

Aparecida e São Paulo - Dom Orani João Tempesta

Tendo aberto neste sábado o Ano Paulino, somos chamados a empreender uma caminhada aproveitando desse momento de graças para que, a exemplo do Apóstolo das gentes, levemos a Boa Notícia até os confins da terra.
O Documento de Aparecida fala da “missão permanente”. Sem dúvida que este ano, em que começamos a colocar em prática as inspirações da V Conferência do Episcopado Latino Americano e Caribenho, o grande modelo de missionário permanente que a providência nos coloca diante dos olhos é São Paulo. Não só pelas suas viagens missionárias, mas pelo espírito que reinou em seu coração durante todos os momentos de sua conversão até o final de sua vida. Tinha o espírito missionário em suas entranhas e gritava a todos; “ai de mim se não evangelizar!” Se neste ano jubilar trouxermos para dentro de nossos corações um pouco desse ânimo missionário de São Paulo, já estaremos percorrendo os caminhos da missão permanente!
O mesmo documento que ilumina nosso trabalho pastoral neste tempo privilegiado recorda a importância de “formar comunidades”. É também para nós uma graça de Deus vermos como São Paulo passa meses em uma mesma cidade formando as pessoas, constituindo comunidades, deixando bispos e presbíteros responsáveis pela animação e articulação das mesmas quase que como fruto de sua atividade itinerante, mas também como caminho de evangelização. São poucos os estudos sobre os tipos de comunidades “paulinas”, mas salta aos olhos esse seu trabalho inicial de pregar e anunciar Jesus Cristo e levá-los a viver em comunidades cristãs.
São Paulo é um homem urbano. Aparecida nos diz que não tememos a grande cidade – é mais oportunidade que dificuldade. O sábio Documento de Aparecida lembra que o cristianismo nasceu mais nas regiões urbanas que nos campos. Por isso, neste tempo de grande urbanização nós olhamos a oportunidade que a Providência nos dá de levarmos a todos o Evangelho de Jesus Cristo através das grandes cidades. Nós olhamos como um desafio positivo, que nos entusiasma em nossa missão. A orientação de Aparecida para uma pastoral urbana reflete bem isso.
A grande tese inicial do Documento de Aparecida que nos desafia é a mudança de época, que é principalmente cultural. Temos necessidade de pessoas que, sintetizando a cultura atual, sejam cristãs autênticas, anunciem com destemor inculturado a Palavra de Deus. São Paulo é uma síntese cultural de seu tempo: judeu, de cultura grega, cidadão romano, falando hebraico e aramaico e talvez latim sintetiza em sua vida tanto a vida em Cristo, igualmente aos poetas e escritores de seu tempo e das culturas, assim como as transformações que em sua época estavam ocorrendo. Para um tempo de mudança de cultura nada melhor que um exemplo de como alguém trabalhou nesse campo nessa situação e pregou intrepidamente o Evangelho e formou comunidades cristãs.
Vivemos a época da comunicação! Talvez nunca a humanidade dispôs de tantas possibilidades de comunicação e talvez nunca esteve tão dependente dela! Sabemos que após o Concílio Vaticano II, com o iluminado decreto Inter Mirifica, primeiro documento aprovado, a Igreja passa a ver a comunicação como um desafio a ser utilizado para a evangelização. Os documentos que se seguiram foram atualizando e aprofundando essas idéias. São Paulo acompanhava suas comunidades com cartas que chegavam e cartas que ele escrevia, animando, corrigindo, mostrando caminhos, catequizando. Inspirados em seu modo de comunicar nasceram várias famílias religiosas especializadas em comunicação. Também o Documento de Aparecida enfrenta essa mesma situação ao falar de comunicação e dos seus desafios a serem enfrentados por nós. Nesse ponto ele ultrapassa, e muito, a síntese nacional que fizemos quando a comunicação tinha sido vista apenas negativamente. Para um tempo de comunicação, nada melhor que um grande comunicador – São Paulo.
E assim poderemos prosseguir nesses paralelos entre os desafios e soluções apontados por Aparecida e a vida desse grande apóstolo que agora começamos a celebrar os dois mil anos de nascimento.
Tendo aberto o seu jubileu, estimulo todos os leitores para procurarem a programação do ano para os vários eventos tanto arquidiocesanos como paroquiais.
Ontem, hoje e sempre é o mesmo Cristo anunciado por São Paulo que também anunciamos hoje. Que o Apóstolo Paulo continue a nos inspirar nessa caminhada!

D. Orani João Tempesta, O. Cist, arcebispo Metropolitano
Fonte: CNBB

DOM ORLANDO BRANDES - ARCEBISPO DE LONDRINA

Chegou o Ano Paulino - Dom Orlando Brandes

O Ano Paulino, decretado pelo Papa Bento XVI, começa no dia 29 de junho de 2008 até 29 de junho 2009. Os católicos são convidados a conhecer, vivenciar, transmitir o “evangelho de Paulo”, ou seja, os escritos paulinos. No Brasil já percebemos uma forte movimentação neste sentido. Edições de livros, cursos bíblicos, retiros, painéis sobre Paulo e a teologia paulina já estão acontecendo. Há grande expectativa na Igreja pelas seguintes razões.
1. O Ano Paulino será um ano bíblico “A Palavra de Cristo habite em vós” (Col 3,16). Acontecerá em Roma no próximo mês de outubro o Sínodo sobre a Palavra de Deus na vida e missão da Igreja. Nós aqui vamos consolidar uma mobilização bíblica para que o povo tenha a Bíblia na mão, no coração e os pés na missão. Vamos também ensinar a Leitura Orante da Bíblia. Precisamos formar um catolicismo bíblico para reanimar nossa vida pessoal, eclesial e social.
2. O Ano Paulino é chance para a conversão. Tudo começou com a conversão de Paulo, com aquele encontro fascinante, decisivo, persuasivo e resplandecente com Jesus Cristo. Paulo foi derrubado pela graça, tocado pela luz, ferido pelo amor misericordioso, recriado pela Palavra que ouviu. Sua conversão foi uma rendição incondicional mediante a fascinação do coração. É hora de conversão pessoal, pastoral e social.3. O Ano Paulino vem consolidar os Grupos de reflexão, as pequenas comunidades. Paulo é o padroeiro dos pequenos grupos, da Igreja nas casas, das comunidades eclesiais. Preparou lideranças que animavam estes grupos como por exemplo: Lídia, Aquila, Priscilla, Apia, Arquipo etc. Paulo nos convoca a crer nos grupos, a visitar as casas, a fundar comunidades.
4. O Ano Paulino quer ser um salto, um impulso da ação missionária. Quanta valentia, ousadia, criatividade encontramos em Paulo, o missionário incansável, peregrino, pedagogo, estrategista. Era missionário dentro das prisões onde foi encarcerado enfrentou centros urbanos e periferias, levou o cristianismo onde reinava o paganismo e o judaísmo. Eis a missão com desassombro.
5. O Ano Paulino é uma oportunidade de renovação ética. Para Paulo, o que vale é ser discípulo e seguidor de Jesus, viver no Espírito, e testemunhar a fé nos gestos de amor fraterno e comunitário. A ética cristã é uma resposta de amor que traz a novidade do perdão, da esperança, da castidade, do celibato. Nosso mundo atual voltou a ser pagão. O Ano Paulino quer ser uma revolução ética. O mundo acredita mais nos testemunhos do que nos mestres. É preciso convencer com as obras e não com palavras apenas.
6. O Ano Paulino é um aprofundamento da teologia da cruz. Paulo sofreu muito, mas a dor lhe conferia vigor e desassombro. O sofrimento era para a glória de Deus, o bem da Igreja e da missão. Além do espinho na carne, Paulo foi apedrejado, torturado, flagelado, preso, perseguido, humilhado, processado e martirizado. Sua mística e sua fé fizeram do sofrimento um crescimento, uma benção, uma sabedoria - a ciência da cruz.
7. O Ano Paulino vem fortalecer o Ano Catequético. Paulo é um catequista de primeira categoria. Convertido, místico, teólogo, itinerante, discípulo, pedagogo, segue catequizando até morrer. Em Paulo temos uma catequese com adultos, uma catequese urbana, nas casas, catequese inculturada e catequese renovada. Prega a sã doutrina, cativa as pessoas, anima os catequistas, sofre porque ama a Igreja e trabalha para o próprio sustento.
8. O Ano Paulino é um ano da graça. Recebemos indulgências especiais neste ano, muitas graças estão reservadas para nós. Que prodígio da graça é a pessoa de Paulo Apóstolo: grego, judeu, cidadão romano, ambulante, sofredor, teólogo, “sou o que sou pela graça de Deus” (ICor 15,10). A graça trabalhou em mim, diz Paulo. Esta mesma graça trabalhará em nós no decorrer do Ano Paulino que vem solidificar o Documento de Aparecida.
*Dom Orlando Brandes, Arcebispo de Londrina
Fonte: CNBB

DOM EURICO DOS SANTOS VELOSO - ARCEBISPO METROPOLITANO DE JUIZ DE FORA - MG

Ano Paulino - Dom Eurico dos Santos Veloso


Do dia 28, a Igreja vai celebrar até o dia 29 de 2009, o Ano Paulino: a comemoração dos 2.000 anos do nascimento do Apóstolo Paulo que nos é conhecido melhor do que qualquer outro Apóstolo, sobretudo por suas Epístolas e pelos Atos dos Apóstolos.
Paulo era judeu, da tribo de Benjamim, nascido em Tarso, mas era igualmente cidadão romano, por direito, segundo ele próprio o declara, quando foi açoitado na prisão em Filipos (cf. At. 16,34), e em Jerusalém (cf. 22,25-29).
De personalidade marcante, firme em suas convicções, de sólida formação religiosa, segundo a doutrina dos fariseus, recebida de Gamaliel, opôs-se tenazmente à mensagem de Cristo e, no seu zelo religioso, perseguia até à morte os seguidores desta doutrina (cf. Fil.3,4-6). A seus pés foram depositadas as vestes de Estevão, quando apedrejado entregava seu espírito a Deus (cf. Atos 7,5, 8).
A caminho de Damasco com cartas para trazer a Jerusalém prisioneiros seguidores daquela doutrina, foi “alcançado por Jesus” (cf. Fil. 3,12). Não foi só uma visão (cf. 1Cor 9,1). Foi uma revelação em seu coração para fazer brilhar o conhecimento da Glória de Deus, que resplandecia na face de Cristo (cf. 2 Cor. 4,6).
A partir deste acontecimento “não consultei carne nem sangue, nem subi a Jerusalém aos que eram apóstolos antes de mim...” apenas partiu para sua missão, a ponto de apenas “ouvimos dizer: quem outrora nos perseguia agora evangeliza a fé que antes devastava” (cf. Gal. 1, 15-24). Saiu a anunciar Cristo, o Filho de Deus.
Destaca-se na missão de Paulo a universalidade. Quando o Senhor Jesus, em visão, ordenou a Ananias que procurasse Paulo, ante a estupefação deste, lhe disse: “vai, porque este homem para mim será um vaso de eleição a fim de anunciar o meu nome diante das nações pagãs, dos reis e dos filhos de Israel“(cf. Atos 9, 15). A pregação de Paulo é para os judeus e gregos, para bárbaros e cultos, ele que se “fez tudo para todos a fim de salvar alguns a todo o custo” (cf. 1Cor. 9, 19-23).
A sua dedicação é total. Forçado a defender-se, perante a Comunidade, em face dos que se lhe opunham, expõe seus trabalhos na evangelização: as perseguições e perigos a que levou a pregação do Evangelho(cf. 2Cor. 11). Mas dela não se gloria, ”com todo o ânimo prefiro gloriar-me das minhas fraquezas para que pouse sobre mim a força de Cristo” (cf. 2Cor. 12,9).
Paulo não evangelizava sozinho. Fundada uma Igreja, acompanhava com seus companheiros o seu crescimento. Trabalhava com eles. Amava os evangelizados com o carinho de mãe. Tinha em seu coração a solicitude de todas as comunidades.
Ainda neste último domingo, no Evangelho Jesus falava a seus discípulos “não tenham medo”. Paulo jamais vacilou: nos trabalhos, nas vigílias, nas perseguições e nas cadeias até o suplício final. Perseguido por pagãos e pelos de sua raça, confiava no Espírito que lhe punha as palavras na sua boca diante dos juízes.
Seduzido por Cristo, deixou-se seduzir. A Palavra de Deus ardia no seu coração. Tinha dúvidas se para ele era melhor ficar e pregar o Evangelho ou ir para unir-se em definitivo com Cristo, naquele amor que persiste para sempre, como cantou no seu Hino à caridade.
Combateu o combate. Guardou a fé que com firmeza anunciava e defendia. Por isso recebeu a coroa que lhe estava reservada, como e a todos que guardam a fé a fazem brilhar nas trevas deste mundo.
Hoje, a Igreja nos remete a uma reflexão sobre nossa vocação missionária. Como para Paulo, a seara é imensa e diversificada, sobretudo na multiplicidade de falsas doutrinas, como previra o Apóstolo a seu discípulo Timóteo.
Guardemos também nossa fé e a anunciemos ao mundo sem temor porque também a nós assiste-nos o Espírito Santo até o fim dos tempos, até recebermos também a coroa destinada a todos os que forem fiéis.
Dom Eurico dos Santos Veloso, arcebispo Metropolitano de Juiz de Fora(MG)

Fonte: CNBB

DOM JACINTO BERGMANN - BISPO DE TUBARÃO - SC

DOM JACINTO BERGMANN - BISPO DE TUBARÃO - SC

ANO PAULINO
MISSÃO DE “POPULARIZAR” SÃO PAULO?

Na história da Igreja existiram grandes santos que não chegaram a ser “populares”, quer dizer, não entraram no imaginário coletivo dos cristãos com a magnitude que alguém pensaria.

É o caso de São Paulo. Quando se fala do apóstolo “secamente”, se entende o apóstolo Paulo. Sua conversão, sua ação evangelizadora no extenso império romano, suas cartas que atravessaram os séculos, são testemunho claríssimo de sua indubitável grandeza.

Desde há dois mil anos, as gerações cristãs alimentaram sua fé nos escritos do apóstolo, as grandes reformas da Igreja os tiveram como referências privilegiadas, igualmente o próprio magistério e a teologia.
Apesar de tudo isso, sua presença “popular” não foi muito grande, embora, em alguns casos, muito significativa. Basta ver a aventura paulina na história da Igreja.
São João Crisóstomo, já no século IV, chamava a atenção que muitos cristãos, não só não liam Paulo, como também nem sequer sabiam quantas cartas havia escrito.
Aspectos mais positivos, porém, apareceram na história.

Em plena revolta protestante, e enquanto os reformadores fazem de Paulo uma bandeira de protesto contra a Igreja de Roma, Santo Antônio Maria Zacaria (1502-1541) funda os “Clérigos Regulares de São Paulo”, com a finalidade de imitar o apóstolo em sua missão evangelizadora, exigida pelos tempos, e impulsionar uma renovação da Igreja de seu tempo.

Em 1696 e 1699, nascem em Chartres (França), duas congregações de “Filhas de São Paulo” que, com o patrocínio do apóstolo, se dedicavam a obras de caridade em escolas e hospitais. Sempre na França, nos encontramos com as “Damas de Saint-Paul”(1825), também dedicadas à educação cristã das jovens.

E não faltou um “Instituto Cegas de São Paulo” (1852), formado por mulheres cegas e não-cegas, para ajudar as pessoas cegas, fazendo realidade as palavras de Paulo: “Agoras somos luz em Cristo”.

São Vicente Pallotti (1795-1850), em seu tempo, foi capelão diretor de uma “Sociedade de São Paulo”, dedicada à instrução cristã dos soldados. Mais tarde, inspirado em São Paulo, dá vida à “Sociedade do Apostolado Católico”.

Em 1896, encontramos na Alemanha, as “Irmãs de São Paulo”, uma congregação religiosa dedicada ao serviço dos enfermos e dos pobres.
Contudo, foi preciso esperar a metade do século XIX para que se comece a pensar no apóstolo Paulo em termos mais atualizados.

A isso contribuiu sem dúvida, Mons. Wilhelm Ketteler, bispo de Manguncia (Alemanha), apóstolo da imprensa católica (1856, funda “Der Katholik”) e pioneiro da questão operária (1864). É sua a frase: “Se São Paulo vivesse hoje, seria jornalista”, tornando-se ela um símbolo e uma fonte de inspiração para os homens da imprensa católica.
Desde então, jornalistas, grupos e até fundadores começam a olhar Paulo como o comunicador ideal da mensagem evangélica, realizada com os meios e os métodos modernos de comunicação: em 1858, nos Estados Unidos, Pe. Issac Thomas Hecker, com os “Sacerdotes Missionários de São Paulo”; em 1873, na Suíça, Côn. Joseph Schorderet, com a “Obra de São Paulo; em 1875, na Itália, surge a “Sociedade de São Paulo”; em 1895, na China, surge o “Instituto Irmãos de São Paulo”; em 1903, no Líbano, aparecem os “Missionários de São Paulo”; no início de séc. XX, os Assuncionistas do Pe. D’Alzon (França) fundam o “Barco de São Paulo” para levar material impresso para a instrução cristã dos moradores das ilhas entre França e Inglaterra.

Um passo decisivo e bem atualizado acerca de São Paulo em nosso tempo, estava reservado a duas instituições que nascem quase ao mesmo tempo e com atividades bem parecidas: a “Sociedade de São Paulo” do Pe. Tiago Alberione, em 1914, e a “Companhia de São Paulo”, conhecida também como “Obra Cardeal Ferrari”, em 1921. A última composta em sua maioria por leigos.

Já o Pe. Tiago Alberione (1884-1971), com o mérito de ter assumido São Paulo de forma integral, converte a “Sociedade de São Paulo” em uma verdadeira “Família Paulina”, formada por sacerdotes, religiosos, religiosas e leigos, com vários ramos, chamados a reproduzir uma determinada faceta do Apóstolo: Paulo - missionário com os meios de comunicação, homem de oração, fundador e animador de comunidades, promotor de vocações, incentivador da humanização das realidades temporais.

Como se pode ver, não são muitos os institutos titulados ao apóstolo São Paulo, porém constituíram-se, através do tempo, fundações e movimentos com traços cada vez mais especificamente “paulinos”, aos poucos aguçando a sua originalidade missionária: ir aos que estão longe, com todos os meios ao seu alcance para comunicar-lhes Cristo, o único Salvador.
Contudo, diante de tanta grandeza, fica a questão inicial: Conseguiram todos estes intentos “popularizar” a figura de São Paulo, fazê-la penetrar massivamente no povo cristão? Talvez ainda não.

O Ano Paulino, convocado pelo Papa Bento XVI, certamente tem a missão de “popularizar” mais o grande apóstolo Paulo. É a nossa grande esperança!

Dom Jacinto Bergmann
Bispo de Tubarão-SC
Fonte:CNBB

PE. ALBERTO ERONTI E SEU COMENTÁRIO

COMENTÁRIO DO Pe. Alberto Eronti.

A notícia diz simplesmente que "no próximo dia 28 de junho às 17:30h, o Papa Bento XVI presidirá as Primeiras Vésperas da Solenidade de São Pedro e São Paulo, na Basílica de São Paulo Extra-Muros, em Roma".

O que há de particular neste anúncio?
Em si mesmo, nada, já que é normal para esta Solenidade que os Papas tenham atitudes relacionadas ao "apóstolo dos gentis". Mas nesta tarde o Papa proclamará o início do "Ano Paulino", em comemoração aos 2.000 anos do nascimento de quem levou o Evangelho "até os confins".
Recordando expressões do Padre Kentenich sobre São Paulo, de quem falou em inúmeras oportunidades, há uma que é particularmente iluminadora: "... São Paulo foi eleito no seio de sua mãe para anunciar ao mundo o mistério de Cristo". Se vemos as cartas atribuídas a São Paulo no Novo Testamento e lemos as primeiras linhas de cada uma delas, constataremos que a expressão que acabo de citar toca o núcleo do que viveu e sentiu o Apóstolo no seu seguimento de Cristo. Todas as cartas começam com uma alusão ao Messias (Cristo), sendo o início da Carta aos Romanos a síntese: "Paulo, servidor de Cristo Jesus, apóstolo por chamado divino, escolhido para anunciar a boa nova de Deus".
O impactante de São Paulo é sua consciência de eleição e de propriedade de Cristo.
Nele se reflete o próprio e essencial do chamado para ser discípulo do Filho de Deus feito homem. Não há dúvidas de que Paulo tinha um temperamento apaixonado, seguiu, serviu Cristo e viveu para Ele com absoluto radicalismo. Tanto é assim que escreverá à Igreja da Galácia: "... Eu vivo, mas já não sou eu; é Cristo que vive em mim. A minha vida presente, na carne, eu a vivo na fé no Filho de Deus, que me amou e se entregou por mim" (Gál. 2,20). Em um mundo pagão foi capaz de viver Cristo e de anunciá-lo com sua vida e sua palavra. Para marcar a grandeza da fé que propunha, soube que teria que buscar uma coerência total entre o dizer e o fazer. Nem aqui demonstra timidez ao manifestar sua decisão íntima e pessoal frente ao mundo e o que este oferece. Não mostra desprezo pelo mundo, mas sim um apreço total por Aquele que mudou-lhe a vida e que a encheu de plenitude, e assim dirá à Igreja de Filipos: "Sem dúvida, tudo isso que para mim era ganância, eu considero perda comparado com Cristo; mais ainda, qualquer outra coisa eu considero perda ao lado do grande que é ter conhecido Jesus Cristo". (Fl. 3, 7-8). Exagerado? Pode ser, mas há momentos em que só os "exagerados" no amor, na entrega e na lealdade se constituem em luz para o mundo e em uma opção de vida para muitos.
Só os "que vivem radicalmente suas convicções, destacam-se da mediocridade
Em um tempo de indiferença ao acontecimento cristão, em uma época em que se produz uma mudança secular da civilização que gerou um agressivo neo-paganismo, em um tempo assim só os "que vivem radicalmente suas convicções, destacam-se da mediocridade e da mesmice em que está submersa a massa humana". Jesus havia dito aos seus "vós sois o sal do mundo" (Mt. 5,14). Paulo se transformou em luz, em luz de Cristo para muitos. Falou com paixão Daquele que amava e a quem havia dado sua vida. Tanto amor colocou no que fazia por e para Cristo, que o homem forte e batalhador, arriscado até a audácia, constituiu-se em mãe de muitos ao apresentar-lhes o Evangelho, tal como manifesta de maneira penetrante e por sua vez manifesta a essência mesmo do ser discípulo: "Filhos meus, outra vez me causam dores de parto, até que Cristo tome forma em vocês".
Com maravilhosa liberdade interior, própria de quem se sente discípulo de Jesus Cristo, dirá à aqueles para os quais levou o Evangelho, que devem ser como ele. Não há problema algum em colocar-se como modelo de discípulo do seu Senhor: "Sigam meu exemplo, como eu sigo o de Cristo" (1ª. Cor. 11,1). Conhecedor do seu mundo, sabia que eram abundantes as "ofertas" enganosas para os que haviam abraçado a fé, por isso sabia também que não bastava falar, havia que encarnar aquilo que se anuncia. Trata de viver de tal maneira o que anuncia para que não fique dúvidas de qual o caminho a seguir. "Irmãos, sede meus imitadores e olhai atentamente para os que vivem segundo o exemplo que nós vos damos" (Fl. 3,17).
Poucos souberam anunciar com a prática de São Paulo o mandado de Jesus, "Dou-vos um novo mandamento: Amai-vos uns aos outros. Como eu vos tenho amado, assim também vós deveis amar-vos uns aos outros" (Jo. 13,34). Em seu afã de que todos entendessem que o seguir a Jesus supõe a novidade de ser conhecidos pelo amor ("nisto todos conhecerão que sois meus discípulos, se vos amardes uns aos outros" (Jo. 13,35) dará ensinamentos belíssimos e concretos à igrejas que fundou. À comunidade de Corinto lhe deixará como testamento o chamado "Hino do Amor" (1ª. Cor. 13, 1-8), onde lhes ensina "um caminho excepcional", porque só "o amor nunca falha". Às Igrejas dos Colossos lhes dirá que para amar como Jesus tem-se que "despojar-se" ou tirar-se o vestido do não amor: cólera, arrabatamentos de ira, insultos, grosserias... e "vestir-se" com o vestido novo do maior amor "...revesti-vos de entranhada misericórdia, de bondade, de humildade, doçura, paciência. Supotai-vos uns aos outros e perdoai-vos mutuamente..." (Col. 3, 8 e 12).
Eleitos, chamados e enviados
Em nossos Santuário, guardando o Tabernáculo e Maria, temos as estátuas dos dois apóstolos. Um tem "a chave" e o outro "a espada". Os símbolos diferenciam cada um e ao mesmo tempo ressaltam sua identidade e missão. Pedro e Paulo foram "eleitos, chamados e enviados" por Jesus Cristo. Trata-se de unir cada um destes verbos às graças do Santuário: acolhimento, transformação e envio. O Pai Fundador define sua missão sobre o viver do Apóstolo dos gentis: "Assim como Paulo foi eleito no ventre de sua mãe para anunciar ao mundo o mistério de Cristo; eu fui eleito no ventre de minha mãe para anunciar ao mundo o mistério de Maria". Não são dois "mistérios" paralelos, mas sim apenas um: Maria viveu para Jesus, o seu mistério é o mistério de Jesus, já que para ele viveu, lutou e se entregou.
Que este Ano Paulino nos encontre unidos e reunidos em nossos Santuários, deixando que o amor nos acolha, transforme e envie, para que o horizonte da missão de Schoenstatt se abra mais e mais aos vastos desafios do tempo e como o Pai da Família possamos rezar:
Mãe, que Schoenstatt "continue sendo teu lugar predileto, baluarte do espírito apostólico, chefe que conduz à luta santa, manancial de santidade na vida diária, fogo ardente que flameja Cristo e, chamejante, esparge centelhas de luz, até que o mundo, num mar de chamas, arda para a glória da Santíssima Trindade. Amém". (Rumo ao Céu, nº 499-500)
Trad.: Luciana Rosas, Brasil
Fonte: Site
Movimento de Schönstatt

DOM GERALDO MAJELLA AGNELO - CARDEAL ARCEBISPO DE SALVADOR

Paulo o Irreprimível Apóstolo - Dom Geraldo Majella Agnelo

Ao final do mês de junho, terão início as comemorações da bi-milenário do nascimento do apóstolo Paulo, ocorrido provavelmente entre 07 e 09 d.C.
A conversão n o caminho de Damasco. O propósito da viagem de Saulo a Damasco é defender a causa de Deus, guardar a pureza da revelação. A situação explodira anos antes em Jerusalém, numa das sinagogas de judeus de língua grega.
Saulo recorda bem a cena: as palavras arriscadas de Estevão contra a Lei e o templo; a acusação, a sentença, a lapidação. Ele esteve presente. Como um tumor, a heresia dos “discípulos do Caminho”, depois chamados “cristãos”, havia se difundido, criando “desordens” entre o povo. As autoridades intervinham de modo drástico. Os mesmos problemas verificavam-se além dos confins da Judéia.
O Sinédrio de Jerusalém, com autoridade moral sobre as sinagogas espalhadas pelo império, enviava emissários para conter a situação. Saulo é um deles. Um Messias crucificado.. que imbecilidade! Pessoas inteligentes podem chegar a tanto?
Saulo antevê os muros de Damasco. As energias perdidas no caminho se renovam, o ânimo se acende, o espírito se prepara para o encontro com as autoridades da sinagoga local. A luz do dia é forte: meio dia, faltam poucos quilômetros, mas, improvisamente a viagem é truncada. O sol se apaga. Um incidente? Não. Uma emboscada? Um violento choque na encruzilhada? Um terrível impacto? Sim. Uma ruptura interior? Sobretudo.
Saulo tentará explicar o que lhe sucedera: luz, voz, queda, cegueira, revelação, graça... Uma coisa é clara: Saulo foi raptado interiormente. Uma experiência que muda violentamente o centro de orientação da sua vida.
Não existe outro Evangelho! Para Paulo o Evangelho é uma pessoa viva dentro de si: Jesus de Nazaré. A boa notícia não é tanto o que decorre do estupor confuso, diante de um túmulo vazio, na manhã daquele primeiro dia da semana depois do sábado da Páscoa do ano 30 d.C., mas a experiência do Cristo vivo em seu coração, que de dentro repete o seu anúncio e revive o seu mistério pascal. O Evangelho é Ele, Mestre interior e Pastor incansável, que se serve da mente, da vontade, do coração, das forças físicas dos fiéis para pensar, querer, amar, agir. Uma força interior que dilata todas as dimensões da personalidade.
Não existe outro Evangelho. Este é o grande fruto da experiência de Damasco que revolucionou o mundo interior de Paulo. Tudo mais é nada: ser hebreu, pertencente à tríbu de Benjamim, circuncidado, a formação farisaica... Nada pode ser equiparado ao conhecimento de Jesus Cristo, à experiência de ter sido por ele arrebatado, preso, conquistado.
Escrevendo aos irmãos gálatas, 1, 8, o apóstolo é ainda mais drástico e declara: “Se nós mesmos ou um anjo do céu vos pregasse Evangelho diverso daquele que vos pregamos, seja anátema. Não existe outro Evangelho”.
A identidade cristã deve gratidão a Paulo pela sua firmeza, quando “os discípulos do Caminho” foram tentados a identificar-se como nova corrente religiosa do judaísmo do primeiro século. Paulo os liberta de seus medos, tira-os de suas seguranças, desmascara compromissos aninhados em seus pensamentos. Não existe outro Evangelho.
O suporte da existência não pode ser substituído nem com a observância da Lei, nem com a prática da circuncisão: no centro está Cristo, somente Ele. E se está Cristo, existem dois braços estendidos, à direita e à esquerda: aos judeus e aos pagãos, aos escravos e aos cidadãos livres, aos homens e às mulheres. O universalismo de Paulo, verdadeiro, fecundo, nasce aqui, não em Tarso. Em Cristo, com Cristo, por Cristo. Não existe outro Evangelho.
“Com o exemplo de Paulo e das primeiras comunidades, é urgente desenvolver as ocasiões de diálogo com nossos contemporâneos, sobretudo onde se joga o futuro do homem e da humanidade. Os areópagos que solicitam hoje o testemunho dos cristãos são numerosos; eu vos encorajo a estar presentes no mundo. Como o profeta Isaias, os cristãos são colocados quais sentinelas em cima da muralha, para discernir os desafios humanos das situações presentes, para perceber na sociedade os germes de esperança e para mostrar ao mundo a luz da Páscoa, que ilumina com um novo dia todas as realidades humanas” (João Paulo II, 5 de maio de 2001).
Dom Geraldo Majella Agnelo, Cardeal Arcebispo de Salvador
Fonte: CNBB