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DOM EUSÉBIO OSCAR SCHEID - ARCEBISPO DO RO DE JANEIRO

São Paulo, Apóstolo dos Gentios – Dom Eusébio Oscar Scheid
Acabamos de celebrar, no dia 25 de janeiro, a conversão de São Paulo. Foi, talvez, o fato mais importante para a história daquele tempo e, certamente, para o Cristianismo, depois do acontecimento do Cristo histórico e de sua Ressurreição gloriosa. São Paulo é o maior Apóstolo de todos os tempos, juntamente com São Pedro, o primeiro Vigário de Cristo na Igreja. Neste ano, iniciaremos a comemoração do Ano Paulino, a partir de 29 de junho próximo até à mesma data, em 2009. Por isso, permitam-me refletir um pouco sobre esse chamado “Apóstolo dos Gentios”.
A história de Paulo chegou até nós pela Tradição e, depois, pelos seus textos – as 14 Cartas – em algumas das quais ele notifica sobre si mesmo. Também encontramos os detalhes de sua missão nos Atos dos Apóstolos, escritos por São Lucas, seu companheiro nas últimas viagens apostólicas, e amigo fiel até à morte do Apóstolo, em Roma. Foi o seu primeiro grande biógrafo.
São Paulo nasceu há dois mil anos, aproximadamente, na cidade de Tarso, região da Cilícia, na Ásia Menor, um dos maiores centros culturais do Império Romano, daquela época. Ele teve uma educação aprimorada, na sua língua pátria, o hebraico. Ainda jovem, foi para Jerusalém, a fim de aprofundar os seus conhecimentos sobre a Lei, os Profetas e as Tradições do seu povo. Tornou-se aluno de Gamaliel, que era membro do Sinédrio, e um dos maiores mestres judeus de todos os tempos.
Recebeu, também, formação helênica. Conhecia bem o grego, e teve contacto com as escolas filosóficas da época, dentre elas o estoicismo e o epicureísmo. Em Atenas, havia muitos desses intelectuais, ou pseudo-intelectuais, apenas interessados em novidades. São Paulo, já convertido, teve um encontro com vários deles, no areópago da cidade. Foi um grande fracasso. Quando ele expôs o centro da pregação e do significado da vida de Cristo, não quiseram aceitar e até fizeram troça sobre o testemunho da Ressurreição do Senhor. Isso lhe causou grande sofrimento.
São Paulo era cidadão romano, em função de privilégio, concedido pelo Império, aos nascidos na cidade de Tarso, entre outras. Portanto, também era versado no latim. Ninguém melhor do que ele para ser o “Apóstolo dos Gentios”, pois representa a síntese de três culturas – judaica, helênica e latina – que perfizeram a sua formação cultural.
Os Atos dos Apóstolos apresentam-no em Jerusalém, já com idade entre 20 e 30 anos, no episódio do apedrejamento de Estêvão. Foi aos pés de Saulo que os executores depositaram as próprias capas, durante o sacrifício do Diácono, em sinal de sua aquiescência com aquela execução. São Paulo, na época ainda chamado de Saulo, seu nome de nascimento, jamais haveria de esquecer aquele fato, que lhe doeu pela vida toda.
Fariseu por convicção e formação, era inimigo dos que seguiam o “Caminho de Jesus”. Tanto que pediu licença para ir a Damasco, na distante Síria, a fim de prendê-los e condená-los. Entretanto, na estrada para Damasco, viveu uma profunda experiência mística, que o derrubou por terra como as suas convicções anteriores: “Subitamente, cercou-o uma luz resplandecente vinda do céu. Caindo por terra, ouviu uma voz, que lhe dizia: ‘Saulo, Saulo, por que me persegues?’ Saulo disse: ‘Quem és, Senhor?’ Respondeu Ele: ‘Eu sou Jesus, a quem tu persegues’. Então, trêmulo e atônito, disse ele: ‘Senhor, que queres que eu faça?’” (At 9,3-5).
Aquele momento marcou Paulo até o final da sua vida. Mostrou-lhe como Jesus se identificava com a comunidade que ele estava perseguindo e matando... Durante três dias ficou na escuridão, sem comer, nem beber. Experimentou a noite escura, da qual falam os místicos, até que recebeu a visita de Ananias. A partir daquela hora, a visão, a personalidade e a vida de Paulo mudaram por completo. Recebeu, a seguir, o Batismo (cf. At 9,8-19).
Prosseguiu seu aprofundamento na fé, através de uma viagem à Arábia, onde parece ter permanecido por mais de um ano, interiorizando o mistério de Cristo. Diferentemente dos outros Apóstolos, Paulo não O conhecera pessoalmente, nem ouvira a pregação de seus próprios lábios. Os Evangelhos ainda não haviam sido escritos. Portanto, o que lhe restava para descobrir sobre a Verdade da Fé eram os ecos daquele encontro sobrenatural, que ele deve ter meditado em oração, no silêncio do deserto da Arábia. A decisão de ser Apóstolo dos Gentios surgiu, possivelmente, naquele período, num contacto muito íntimo com o Cristo, e com os Apóstolos Kefas, Tiago e João.
O próprio Paulo testemunha: “Eu sou o menor dos apóstolos, e não sou digno de ser chamado apóstolo, porque persegui a Igreja de Deus. Mas, pela graça de Deus sou o que sou, e a graça que Ele me deu não tem sido inútil” (1Cor 15,9-10a). “Asseguro-vos, irmãos, que o Evangelho pregado por mim não tem nada de humano. Não o recebi nem o aprendi de homem algum, mas mediante uma revelação de Jesus Cristo” (Gl 1,11-12).
Dentre os temas da doutrina de São Paulo, destacamos como ponto central, a cruz do Senhor, que ele anuncia como superior a qualquer sabedoria humana: “Os judeus pedem milagres, os gregos reclamam sabedoria; mas nós pregamos Cristo crucificado, escândalo para os judeus e loucura para os pagãos” (1Cor 1,22-23).
Outro ponto fundamental é o poder do sangue de Cristo. Ele, que fora responsável pelo derramamento de sangue inocente, reconhece o valor infinito do sangue de Cristo, para nos salvar: “Pelo seu sangue, temos a Redenção, a remissão dos pecados” (Ef 1,7); “Por intermédio daquele que, ao preço do próprio sangue na cruz, restabeleceu a paz a tudo quanto existe na terra e nos céus” (Cl 1,20).
São Paulo também insiste sobre a vida nova. Não bastam a Lei e os Profetas. Agora tudo se fez novo, com o acontecimento histórico de Cristo, que é o novo caminho. Portanto, não se vive mais das tradições antigas. A vida é o próprio Cristo: “Eu vivo, mas já não sou eu; é Cristo que vive em mim. A minha vida presente, na carne, eu a vivo na fé no Filho de Deus, que me amou e se entregou por mim” (Gl 2,20).
Ainda se pode mencionar o poder da graça, que vem de Cristo, e que Ele comunica a toda a humanidade. Aqueles que se abrem a esse dom recebem a força divina para viver os mandamentos e seguir o caminho de Cristo Jesus. Imerecida graça, mas tão forte que nos faz superar quaisquer obstáculos que a vida presente nos possa apresentar.
Finalmente, aprendemos com São Paulo sobre a importância das comunidades. Suas Cartas sempre incluem admoestações e ensinamentos para as primeiras comunidades, que ele – em grande parte - fundou e buscava estruturar. São experiências valiosas para nós, até os dias de hoje. O Livro dos Atos também nos revela a solicitude do Apóstolo pelo grupo dos Doze, especialmente Kefas (nome grego de Pedro)(cf. At 15,4-21). Ambos tiveram seu sangue derramado em Roma, Pedro, crucificado e Paulo, decapitado.
São Paulo teve uma vida de muito sacrifício. Foi algumas vezes flagelado e apedrejado, sofreu um longo naufrágio. Fez quatro grandes viagens ou, pelo menos três, segundo sabemos, sendo a última para Roma, onde esteve no cárcere, durante diversos anos. Posteriormente, sofreu a decapitação, nos arredores daquela cidade. No local, conhecido como Tre Fontane (“Três Fontes”), ergue-se hoje uma igreja, recordando o tríplice impacto que sua cabeça teria sofrido, ao ser cruelmente separada do corpo.
Nas ocasiões em que visitei aquele local, assim como quando leio as Cartas de Paulo, sempre peço a Deus um pouco daquela mesma luz que Ele projetou sobre esse grande Apóstolo, para que eu possa compreender os seus ensinamentos, seguir o seu exemplo e ser capaz de testemunhar Cristo pelo meu ministério e pela pobreza de minha pessoa e de minha vida.
*Cardeal Eusébio Oscar Scheid, 75, arcebispo do Rio de Janeiro (RJ)
Fonte: CNBB

DOM PEDRO JOSÉ CONTI - BISPO DE MACAPÁ


Cair do cavalo - Dom Pedro José Conti

Peço desculpas a São Pedro se este ano vou falar mais de... São Paulo. Acontece que a partir do final de junho até a mesma data do próximo ano celebraremos, no mundo, todo o Ano Paulino. Uma forma que a Igreja Católica encontrou de lembrar e festejar, de maneira extraordinária, aquele grande apóstolo, missionário e evangelizador dos pagãos que foi, justamente, São Paulo.
Todos devemos lembrar a presença do então Saulo, no apedrejamento do protomártir Estevão, narrada nos Atos dos Apóstolos. Como também sempre chama atenção a famosa queda dele do cavalo no caminho rumo a Damasco. Saulo mudou radicalmente de vida e até de nome. De perseguidor, tornou-se testemunha de Cristo, a tal ponto de ser martirizado, em Roma, por volta dos anos 70.
Pensando bem, o nosso encontro com Jesus deveria ser para mudar mesmo a nossa vida. A outros santos famosos, por exemplo: Santo Agostinho, São Francisco, Santo Inácio de Loyola, aconteceu o mesmo. Eles mudaram de vida, de uma vez por todas, deixando para trás tudo o que começaram a reconhecer como “lixo”, segundo as palavras do próprio São Paulo. Com a fé encontraram o tesouro mais valioso de todos.
Nem sempre as conversões aconteceram e acontecem com tanta rapidez e determinação. No entanto, de uma forma ou de outra, algo de visível e concreto deve aparecer. Quando a nossa fé e as suas manifestações viram rotina, bem encaixadas no planejamento da nossa vida, junto - por exemplo- ao trabalho, ao passeio, às compras, às férias, é para por em dúvida se encontramos o Jesus verdadeiro ou uma caricatura dele, adocicada e folclórica. Mais enfeite de parede, de pescoço ou de orelha, do que razão de vida.
Se as nossas crenças não incomodam, nem um pouco, o nosso cotidiano, é sinal de que ainda não caímos do nosso cavalo. Ali estamos bem instalados, com todas as nossas seguranças. Chegamos a pensar que Deus esteja conosco, simplesmente porque nós o colocamos, devota e respeitosamente, em um cantinho da nossa vida. Mas atenção: pode ser somente um amuleto contra os malefícios e o mau olhado.
O seguimento de Jesus é sincero, quando deixamos que ele revolucione a nossa vida: nas idéias, nos projetos, na busca e no uso dos bens, no encontro com as pessoas, na consciência. Exceto isso é difícil acreditar que algo de novo tenha acontecido, realmente, em nossa vida. Jesus continua bem fechado no seu sepulcro, ainda não ressuscitou para nós.
Nesse sentido, São Paulo sempre será um exemplo de mudança de vida séria e profunda, mas também de amor apaixonado por Jesus. O ódio e a perseguição dos cristãos transformaram-se em total dedicação e seguimento destemido. O apóstolo ficou tão feliz por ter sido agarrado por Jesus, que não queria mais deixá-lo. O único medo dele era ter corrido em vão e perder, no último instante, o prêmio incomparável que aguarda todos os que travam o bom combate da fé.
Se alguém achar que esse homem foi um fanático, um carente com complexo de inferioridade, que se autopromovia defendendo o próprio trabalho apostólico com discursos brilhantes de oratória, é porque nunca leu as suas cartas. O objeto da pregação de São Paulo foi a Cruz do Senhor Jesus, e a única razão da sua vida, o amor incondicional a Ele. Nem o maior namorado diria à namorada que, por amor, está disposto a “desculpar tudo, crer tudo, esperar tudo, suportar tudo” (cfr. 1 Cor 13,7). Seria arriscado demais. No entanto São Paulo falava assim do amor de Deus, do amor que deveria tomar conta da nossa vida, do amor verdadeiro que jamais acabará. Que coragem!
Dom Pedro José Conti, Bispo de Macapá
Fonte: CNBB

PE. ALBERTO ERONTI E SEU COMENTÁRIO

COMENTÁRIO DO Pe. Alberto Eronti.

A notícia diz simplesmente que "no próximo dia 28 de junho às 17:30h, o Papa Bento XVI presidirá as Primeiras Vésperas da Solenidade de São Pedro e São Paulo, na Basílica de São Paulo Extra-Muros, em Roma".

O que há de particular neste anúncio?
Em si mesmo, nada, já que é normal para esta Solenidade que os Papas tenham atitudes relacionadas ao "apóstolo dos gentis". Mas nesta tarde o Papa proclamará o início do "Ano Paulino", em comemoração aos 2.000 anos do nascimento de quem levou o Evangelho "até os confins".
Recordando expressões do Padre Kentenich sobre São Paulo, de quem falou em inúmeras oportunidades, há uma que é particularmente iluminadora: "... São Paulo foi eleito no seio de sua mãe para anunciar ao mundo o mistério de Cristo". Se vemos as cartas atribuídas a São Paulo no Novo Testamento e lemos as primeiras linhas de cada uma delas, constataremos que a expressão que acabo de citar toca o núcleo do que viveu e sentiu o Apóstolo no seu seguimento de Cristo. Todas as cartas começam com uma alusão ao Messias (Cristo), sendo o início da Carta aos Romanos a síntese: "Paulo, servidor de Cristo Jesus, apóstolo por chamado divino, escolhido para anunciar a boa nova de Deus".
O impactante de São Paulo é sua consciência de eleição e de propriedade de Cristo.
Nele se reflete o próprio e essencial do chamado para ser discípulo do Filho de Deus feito homem. Não há dúvidas de que Paulo tinha um temperamento apaixonado, seguiu, serviu Cristo e viveu para Ele com absoluto radicalismo. Tanto é assim que escreverá à Igreja da Galácia: "... Eu vivo, mas já não sou eu; é Cristo que vive em mim. A minha vida presente, na carne, eu a vivo na fé no Filho de Deus, que me amou e se entregou por mim" (Gál. 2,20). Em um mundo pagão foi capaz de viver Cristo e de anunciá-lo com sua vida e sua palavra. Para marcar a grandeza da fé que propunha, soube que teria que buscar uma coerência total entre o dizer e o fazer. Nem aqui demonstra timidez ao manifestar sua decisão íntima e pessoal frente ao mundo e o que este oferece. Não mostra desprezo pelo mundo, mas sim um apreço total por Aquele que mudou-lhe a vida e que a encheu de plenitude, e assim dirá à Igreja de Filipos: "Sem dúvida, tudo isso que para mim era ganância, eu considero perda comparado com Cristo; mais ainda, qualquer outra coisa eu considero perda ao lado do grande que é ter conhecido Jesus Cristo". (Fl. 3, 7-8). Exagerado? Pode ser, mas há momentos em que só os "exagerados" no amor, na entrega e na lealdade se constituem em luz para o mundo e em uma opção de vida para muitos.
Só os "que vivem radicalmente suas convicções, destacam-se da mediocridade
Em um tempo de indiferença ao acontecimento cristão, em uma época em que se produz uma mudança secular da civilização que gerou um agressivo neo-paganismo, em um tempo assim só os "que vivem radicalmente suas convicções, destacam-se da mediocridade e da mesmice em que está submersa a massa humana". Jesus havia dito aos seus "vós sois o sal do mundo" (Mt. 5,14). Paulo se transformou em luz, em luz de Cristo para muitos. Falou com paixão Daquele que amava e a quem havia dado sua vida. Tanto amor colocou no que fazia por e para Cristo, que o homem forte e batalhador, arriscado até a audácia, constituiu-se em mãe de muitos ao apresentar-lhes o Evangelho, tal como manifesta de maneira penetrante e por sua vez manifesta a essência mesmo do ser discípulo: "Filhos meus, outra vez me causam dores de parto, até que Cristo tome forma em vocês".
Com maravilhosa liberdade interior, própria de quem se sente discípulo de Jesus Cristo, dirá à aqueles para os quais levou o Evangelho, que devem ser como ele. Não há problema algum em colocar-se como modelo de discípulo do seu Senhor: "Sigam meu exemplo, como eu sigo o de Cristo" (1ª. Cor. 11,1). Conhecedor do seu mundo, sabia que eram abundantes as "ofertas" enganosas para os que haviam abraçado a fé, por isso sabia também que não bastava falar, havia que encarnar aquilo que se anuncia. Trata de viver de tal maneira o que anuncia para que não fique dúvidas de qual o caminho a seguir. "Irmãos, sede meus imitadores e olhai atentamente para os que vivem segundo o exemplo que nós vos damos" (Fl. 3,17).
Poucos souberam anunciar com a prática de São Paulo o mandado de Jesus, "Dou-vos um novo mandamento: Amai-vos uns aos outros. Como eu vos tenho amado, assim também vós deveis amar-vos uns aos outros" (Jo. 13,34). Em seu afã de que todos entendessem que o seguir a Jesus supõe a novidade de ser conhecidos pelo amor ("nisto todos conhecerão que sois meus discípulos, se vos amardes uns aos outros" (Jo. 13,35) dará ensinamentos belíssimos e concretos à igrejas que fundou. À comunidade de Corinto lhe deixará como testamento o chamado "Hino do Amor" (1ª. Cor. 13, 1-8), onde lhes ensina "um caminho excepcional", porque só "o amor nunca falha". Às Igrejas dos Colossos lhes dirá que para amar como Jesus tem-se que "despojar-se" ou tirar-se o vestido do não amor: cólera, arrabatamentos de ira, insultos, grosserias... e "vestir-se" com o vestido novo do maior amor "...revesti-vos de entranhada misericórdia, de bondade, de humildade, doçura, paciência. Supotai-vos uns aos outros e perdoai-vos mutuamente..." (Col. 3, 8 e 12).
Eleitos, chamados e enviados
Em nossos Santuário, guardando o Tabernáculo e Maria, temos as estátuas dos dois apóstolos. Um tem "a chave" e o outro "a espada". Os símbolos diferenciam cada um e ao mesmo tempo ressaltam sua identidade e missão. Pedro e Paulo foram "eleitos, chamados e enviados" por Jesus Cristo. Trata-se de unir cada um destes verbos às graças do Santuário: acolhimento, transformação e envio. O Pai Fundador define sua missão sobre o viver do Apóstolo dos gentis: "Assim como Paulo foi eleito no ventre de sua mãe para anunciar ao mundo o mistério de Cristo; eu fui eleito no ventre de minha mãe para anunciar ao mundo o mistério de Maria". Não são dois "mistérios" paralelos, mas sim apenas um: Maria viveu para Jesus, o seu mistério é o mistério de Jesus, já que para ele viveu, lutou e se entregou.
Que este Ano Paulino nos encontre unidos e reunidos em nossos Santuários, deixando que o amor nos acolha, transforme e envie, para que o horizonte da missão de Schoenstatt se abra mais e mais aos vastos desafios do tempo e como o Pai da Família possamos rezar:
Mãe, que Schoenstatt "continue sendo teu lugar predileto, baluarte do espírito apostólico, chefe que conduz à luta santa, manancial de santidade na vida diária, fogo ardente que flameja Cristo e, chamejante, esparge centelhas de luz, até que o mundo, num mar de chamas, arda para a glória da Santíssima Trindade. Amém". (Rumo ao Céu, nº 499-500)
Trad.: Luciana Rosas, Brasil
Fonte: Site
Movimento de Schönstatt

DOM GIL ANTÔNIO MOREIRA - BISPO DE JUNDIAÍ - SP

Ano Paulino - Dom Gil Antônio Moreira

Paulo, Apóstolo de Jesus Cristo, como ele mesmo se intitula, será lembrado especialmente durante um ano, a partir do dia 28 de junho próximo. A decisão vem do Santo Padre, o Papa Bento XVI, com o objetivo de celebrar os dois mil anos de nascimento do primeiro grande missionário da fé cristã.
Muitas atividades litúrgicas, acadêmicas, culturais e devocionais serão desenvolvidas em todas as partes do mundo cristão, com destaque para as celebrações na cidade de Roma, onde se encontra o túmulo do Apóstolo, na basílica São Paulo Fora dos Muros. O Sumo Pontífice associou a algumas destas celebrações a indulgência plenária aos fiéis que delas participarem. A celebração é ocasião propícia para um aprofundamento dos estudos da Palavra de Deus contida na Bíblia, da qual faz parte o chamado Corpus Paulinum, com treze cartas atribuídas ao Apóstolo dos Gentios.
Paulo, cujo nome na versão hebraica é Saulo, nasceu em Tarso, na Cilícia, hoje território da Turquia, entre os anos 7 e 10, segundo a grande maioria dos historiadores. Filho de pais judeus da diáspora, estudou em escola grega e por isso tinha como língua materna este idioma. Mas também foi formado em doutrina judaica, em Jerusalém, onde passou parte de sua juventude, na famosa escola do Rabino Gamaliel. Assim seria fluente também na língua aramaica. Era fariseu, homem culto, de espírito empreendedor, de uma têmpera singular em tudo o que fazia.
Inicialmente, ferrenho perseguidor dos cristãos, a partir de uma experiência mística, converte-se ao cristianismo no caminho de Damasco, para onde ia com cartas das autoridades para aprisionar cristãos. Ele mesmo afirma ter ouvido a voz de Cristo Ressuscitado, vinda do céu, que clamava: “Saulo, Saulo, por que me persegues?”. (At.9,1-22). A partir de então, torna-se intrépido apóstolo e missionário do Senhor.
São Paulo é considerado o primeiro teólogo do cristianismo, sendo seus textos, básicos para toda a teologia posterior. Foi o primeiro escritor da fé cristã, através de cartas que enviava às comunidades, a fim de ensinar, animar a fé, corrigir distorções doutrinais e reconduzir ao bom caminho os que moralmente claudicassem.
Com relação ao Corpus Paulinum do Novo Testamento, há, entre os exegetas, certas incertezas a respeito da autoria de algumas cartas, podendo ter sido escritas posteriormente por discípulos, fiéis à doutrina pregada por Paulo. É o caso das chamadas cartas pastorais, ou sejam I e II Timóteo e a carta a Tito. Grande parte dos autores atualmente inclui entre as dêutero-paulinas, também Efésios, Colossenses e a 2ª Tessalonicenses. Se isto for comprovado, todas estas teriam sido escritas após a morte de Paulo, acontecida por volta do ano 67. Pertencem ao grupo das proto-paulinas, ou seja, de comprovada autoria de Paulo, as demais, a saber, Romanos, Gálatas, 1ª Tessalonicenses, 1ª e 2ª Coríntios, Filipenses e Filêmon.
Sobre a datação das cartas de Paulo, a definição é sempre aproximativa. A mais antiga teria sido a 1ª Tessalonicenses, escrita da cidade de Corinto, por volta do ano 51. Depois viriam as cartas aos Coríntios, a primeira escrita da cidade de Éfeso, no ano 55 e a segunda enviada de alguma cidade da Macedônia, entre 55 e 57. Há suficiente certeza de que Paulo tenha escrito mais duas cartas aos coríntios, que até o momento se encontram desaparecidas. A carta aos Gálatas teria sido escrita entre 55 e 60, embora alguns afirmem que possa ter sido esta a primeira carta escrita por Paulo. A carta aos Romanos provavelmente teria sido redigida no ano 57, na cidade de Corinto, endereçada aos cristãos da capital do Império. A carta aos Filipenses é datada entre 53 a 58.
Até anos atrás, se considerava também a chamada carta aos Hebreus como possivelmente de Paulo. Hoje nenhum autor afirma mais isto e comumente se diz que não se trata propriamente de uma carta, mas de um texto catequético em defesa da fé.
Sobre a vida e a ação missionária de Paulo, nos dá muitas informações também o livro dos Atos dos Apóstolos, escrito por Lucas, provavelmente entre os anos 61 e 63, ou mais tardiamente. Tal livro termina a narração abruptamente e não se refere à condenação de Paulo à morte, o que dá idéia de ser um livro inacabado, redigido antes do seu martírio.
A celebração do Ano Paulino, cuja abertura será dia 28 de junho corrente e término em 29 de junho de 2009, tem como principal objetivo a evangelização. Todos estamos em processo de evangelização contínua, católicos e não católicos, e somos chamados a comunicar o evangelho de Cristo, morto e ressuscitado, aos que ainda não crêem e aprofundá-lo no coração dos que já crêem.
Talvez, a palavra mais incisiva para a vivência deste ano jubilar, seja a de Paulo aos Coríntios: «Ai de mim, se eu não evangelizar!» (1 Cor 9,16).
*Dom Gil Antônio Moreira, bispo de Jundiaí (SP)

Fonte:CNBB

DOM GERALDO MAJELLA AGNELO - CARDEAL ARCEBISPO DE SALVADOR

Paulo o Irreprimível Apóstolo - Dom Geraldo Majella Agnelo

Ao final do mês de junho, terão início as comemorações da bi-milenário do nascimento do apóstolo Paulo, ocorrido provavelmente entre 07 e 09 d.C.
A conversão n o caminho de Damasco. O propósito da viagem de Saulo a Damasco é defender a causa de Deus, guardar a pureza da revelação. A situação explodira anos antes em Jerusalém, numa das sinagogas de judeus de língua grega.
Saulo recorda bem a cena: as palavras arriscadas de Estevão contra a Lei e o templo; a acusação, a sentença, a lapidação. Ele esteve presente. Como um tumor, a heresia dos “discípulos do Caminho”, depois chamados “cristãos”, havia se difundido, criando “desordens” entre o povo. As autoridades intervinham de modo drástico. Os mesmos problemas verificavam-se além dos confins da Judéia.
O Sinédrio de Jerusalém, com autoridade moral sobre as sinagogas espalhadas pelo império, enviava emissários para conter a situação. Saulo é um deles. Um Messias crucificado.. que imbecilidade! Pessoas inteligentes podem chegar a tanto?
Saulo antevê os muros de Damasco. As energias perdidas no caminho se renovam, o ânimo se acende, o espírito se prepara para o encontro com as autoridades da sinagoga local. A luz do dia é forte: meio dia, faltam poucos quilômetros, mas, improvisamente a viagem é truncada. O sol se apaga. Um incidente? Não. Uma emboscada? Um violento choque na encruzilhada? Um terrível impacto? Sim. Uma ruptura interior? Sobretudo.
Saulo tentará explicar o que lhe sucedera: luz, voz, queda, cegueira, revelação, graça... Uma coisa é clara: Saulo foi raptado interiormente. Uma experiência que muda violentamente o centro de orientação da sua vida.
Não existe outro Evangelho! Para Paulo o Evangelho é uma pessoa viva dentro de si: Jesus de Nazaré. A boa notícia não é tanto o que decorre do estupor confuso, diante de um túmulo vazio, na manhã daquele primeiro dia da semana depois do sábado da Páscoa do ano 30 d.C., mas a experiência do Cristo vivo em seu coração, que de dentro repete o seu anúncio e revive o seu mistério pascal. O Evangelho é Ele, Mestre interior e Pastor incansável, que se serve da mente, da vontade, do coração, das forças físicas dos fiéis para pensar, querer, amar, agir. Uma força interior que dilata todas as dimensões da personalidade.
Não existe outro Evangelho. Este é o grande fruto da experiência de Damasco que revolucionou o mundo interior de Paulo. Tudo mais é nada: ser hebreu, pertencente à tríbu de Benjamim, circuncidado, a formação farisaica... Nada pode ser equiparado ao conhecimento de Jesus Cristo, à experiência de ter sido por ele arrebatado, preso, conquistado.
Escrevendo aos irmãos gálatas, 1, 8, o apóstolo é ainda mais drástico e declara: “Se nós mesmos ou um anjo do céu vos pregasse Evangelho diverso daquele que vos pregamos, seja anátema. Não existe outro Evangelho”.
A identidade cristã deve gratidão a Paulo pela sua firmeza, quando “os discípulos do Caminho” foram tentados a identificar-se como nova corrente religiosa do judaísmo do primeiro século. Paulo os liberta de seus medos, tira-os de suas seguranças, desmascara compromissos aninhados em seus pensamentos. Não existe outro Evangelho.
O suporte da existência não pode ser substituído nem com a observância da Lei, nem com a prática da circuncisão: no centro está Cristo, somente Ele. E se está Cristo, existem dois braços estendidos, à direita e à esquerda: aos judeus e aos pagãos, aos escravos e aos cidadãos livres, aos homens e às mulheres. O universalismo de Paulo, verdadeiro, fecundo, nasce aqui, não em Tarso. Em Cristo, com Cristo, por Cristo. Não existe outro Evangelho.
“Com o exemplo de Paulo e das primeiras comunidades, é urgente desenvolver as ocasiões de diálogo com nossos contemporâneos, sobretudo onde se joga o futuro do homem e da humanidade. Os areópagos que solicitam hoje o testemunho dos cristãos são numerosos; eu vos encorajo a estar presentes no mundo. Como o profeta Isaias, os cristãos são colocados quais sentinelas em cima da muralha, para discernir os desafios humanos das situações presentes, para perceber na sociedade os germes de esperança e para mostrar ao mundo a luz da Páscoa, que ilumina com um novo dia todas as realidades humanas” (João Paulo II, 5 de maio de 2001).
Dom Geraldo Majella Agnelo, Cardeal Arcebispo de Salvador
Fonte: CNBB